Colunas Zero Hora

FEVEREIRO 2010

A safra dos vinhos
 
Chega fevereiro, época da vindima no Rio Grande do Sul. Festa da uva, cada vinícola promovendo atividades culturais, parreirais carregados. Uma época de muito trabalho, um dos momentos mais importantes da elaboração, afinal, mais de noventa por cento da qualidade de um vinho vem da uva utilizada. É nesta hora que muitos aromas nascem, coisas boas e ruins podem acontecer, controlar cada detalhe é fundamental. A safra é um dos principais descritivos de sua qualidade, por isto os críticos gostam tanto de conhecê-la. Tudo inicia no inverno, com a poda. Esta prática já irá determinar muito da quantidade que cada planta vai produzir. Vêm a primavera, é hora de torcer para que o clima colabore, pois é uma das etapas mais delicadas da planta, os cachos estão em flor. Qualquer chuva mais intensa, geada ou calor excessivo pode danificar a colheita inteira. Variedades mais sensíveis à geadas tardias, como a Chardonnay, por exemplo, sofrem muito e as perdas podem chegar a cem por cento de um vinhedo. Passam os dias, a planta já começa a ter as primeiras bagas, em uma etapa que os viticultores chamam "estágio de chumbinho". Também é hora de esperar pelo clima e cuidar muito, pois formigas e outros insetos também começam a molestar. No verão, as uvas já começam a amadurecer, sendo que muitas já atingem o seu ponto ideal. Em anos bons, o cenário é de calor durante os dias, uma leve brisa, temperaturas mais amenas a noite, chuvas muito moderadas; além de ter menor aparecimento de pragas e outras moléstias, o cacho consegue se desenvolver bem, concentrar melhor os açúcares, desenvolver bem a matéria corante e resultar em vinhos de mais corpo. Melhor se chagrem ao outono. Por outro lado, anos mais frios e secos são perfeitos para os vinhos brancos. Um exemplo de qualidade foi a safra de 2005 na serra gaúcha; enquanto muitas culturas agrícolas amargavam a seca, a serra agradecia, pois resultou em um ano espetacular para vinhos de guarda. Da mesma forma, na região de Bordeaux, 2008 foi um ano de muitas chuvas, onde até os vinhos mais caros do mundo sofreram suas perdas. A safra é uma festa para os viticultores, a celebração de resultados depois de tanto trabalho. A religiosidade sempre é muito presente nestas comunidades, pois rezar e pedir aos céus que conserve o bom clima, afastando tormentas, é hábito e fé dos agricultores, desde os seus ancestrais, principalmente italianos. A safra é um fator importante de observar na hora da compra de seus vinhos, além de um tema muito interessante, pois alia geografia, história, biologia, além de turismo, quando é possível visitar e vivenciar este presente da natureza.


JANEIRO 2010

Vinhos de verão
 
Já faz tempo que o pensamento:"vinho é bebida de inverno" foi totalmente superado. Considerando que há mais de dezenas de milhares de tipos de vinhos no mundo inteiro e que só em nossas vinícolas temos mais de mil marcas, basta conhecer, ler, degustar e descobrir as melhores opções para todos os dias do ano, todas as estações. Há vinhos leves, delicados, amadeirados ou não, doces ou secos, basta harmonizar alguns fatores: seu gosto pessoal, a companhia, o que será servido e quanto se deseja gastar. Para o verão, gosto de pensar no ambiente, amigos, flores, frutas, muitos peixes, pratos leves. Nossa sugestão é que o vinho esteja integrado neste ambiente caloroso: um bom espumante é perfeito. Este verão é dos espumantes do Brasil, são muitas opções para conhecer. Seja um rosé, brut, são ótimos para acompanhar um salmão; caso goste de bebidas mais doces, prove um moscatel, bem refrescante, junto a uma taça de morangos ou petiscos no happy hour, são sempre elegantes. Há também excelentes vinhos frisantes (vinhos com um toque de gás, menor pressão que um espumante), com bom preço. Se o desejo for buscar algo sem borbulhas, comece com um vinho branco bastante leve, como um Torrontés ou Malvasia; os mais tradicionais adoram Moscato, que segue tendo seu espaço na adega dos consumidores. Para variar, descubra as novidades:da fronteira do Rio Grande do Sul com Uruguai, prove Viogner ou Pinot Grigio, cítricos e saborosos como um abacaxi maduro. Podem ser refrigerados na geladeira ou em um balde de gelo, degustados entre 6 a 8 graus. Para quem aprecia brancos mais encorpados, um Chardonnay com toques de madeira é a recomendação; para harmonizar, uma porção caprichada de frutas secas, como castanhas, uvas passas, amêndoas, pistache e avelãs, irá ressaltar ainda mais as qualidades do vinho. Os rosés seguem firme como as grandes estrelas; o tom mais delicado, ao estilo da Provence, está reconquistando o consumidor brasileiro. Nos tintos, se comprovam as teorias, estamos bebendo mais vinhos leves; procure opções de Pinot Noir, Malbecs, Merlots, com graduação alcólica moderada, bem como safras recentes. Podem ir ao balde de gelo também, sem preconceitos. Aos que apreciam um bom Cabernet Sauvignon, calor não é desculpa: é sabido que o povo baiano, mesmo com as altas temperaturas, é um dos que mais gosta de vinhos encorpados. O que vale é beber aquilo que você gosta. Se for o caso, inclua frutas em suas taças de espumante ou vinhos brancos; brinque e crie sangrias bem ao estilo espanhol com os tintos leves. Ouse ainda mais, sirva o vinho rosé em jarras, como na Cote d'Azur. Deixe o vinho ser parte de seus momentos felizes neste verão.


NATAL 2009

Panettones e Vinhos
 
Desde criança esperava com ansiedade a chegada do Natal: não eram somente os presentes, a alegria. Era hora de ver aquela mesa farta e, principalmente aquele pão doce, recheado de frutas ou chocolate, delicioso, sendo parte do ritual. O Panettone é uma das iguarias natalinas mais apreciadas e difundidas no mundo, sendo mais do que só um alimento, é presente, tem significados, congrega. Original das famílias do norte da Itália, conta a lenda que teria sido criada por um padeiro da cidade de Milão chamado Toni e, com o tempo, o nome "Pane-di-Toni" teria difundido-se por todo o país. Hoje há uma enorme quantidade de marcas e, mais recentemente, Panettones Gourmet, asinados por chefs e grandes grifes, cheios de sabor e criatividade. Como sempre no mundo do vinho, bebidas e alimentos andam juntos, não só no paladar, mas suas origens, surgimento, pois a natureza parece sempre harmonizar tudo ao seu redor. E foi em Asti, pequeno vilarejo do Piemonte, que surge um espumante de uvas moscatéis, de baixa graduação alcoólica e doce pelo próprio açúcar na uva, elaborado de forma artesanal pelos camponeses e hoje uma referência em produtos a nível mundial. Aqui é atualmente uma bebida de moda, elaborado com muita qualidade pelas vinícolas brasileiras, sob a denominação "Espumante Moscatel". Leve, delicado, casual, este tipo de bebida tem conquistado muitos apreciadores: por ter apenas 7º alcoólicos, convida a degustar uma taça, observar o pôr-dos-sol. Quem não gosta de brut e muitas vezes não aprecia nem vinho, dificilmente resiste a esta perfumaria, doce e saborosa. Por tradição, em Asti, na Itália, é bebido até mesmo pelas crianças na hora do brinde natalino, quando é servido o Panettone. É a combinação ideal. O sabor das frutas em passa ou cristalizada, cítrico e doce a maciez da massa são perfeitos para receber o perfume de um moscatel. Este espumante deve ser apreciado muito jovem, para preservar bem este aroma frutado. É preciso também que tenha um toque de acidez, para não ficar desequilibrado. Neste ponto, os exemplares brasileiros levam vantagem sobre os italianos, pois com todo o processo de importação, muitos já podem chegar às lojas com mais tempo em garrafa; o brasileiro pode ter mais frescor. Outra vantagem é o preço: moscatéis costumam ter excelente relação custo/benefício. Neste natal, não deixe de apreciar uma bela fatia do Pane-di-Toni junto a um bom moscatel: tenha certeza, toda sua família vai adorar a experiência.
 

DEZEMBRO 2009 

GASTRONOMIA ASIÁTICA E VINHOS
 
Uma das grandes modas deste verão será a gastronomia asiática. Sejam os tradicionais sushis, sashimis, gastronomia tailandesa ou indiana, é difícil não se seduzir com o aroma do curry, a beleza dos ingredientes, a mística e rituais que envolvem cada detalhe. A leveza dos pratos, toda a saúde dos alimentos frescos, peixes crus e o exótico das especiarias chegaram no Brasil para ficar. A Ásia é muito grande e diversificada, é impossível generalizar; queremos considerar aqui o que é mais conhecido, que tem se tornado mais fácil encontrar e que está tomando conta das mesas do país. Sair e degustar um temaki já é parte do cotidiano; esta curiosa e deliciosa gastronomia aproximou as "asian food" dos jovens, fazendo-a fácil de apreciar no dia-a-dia. E na hora de combinar vinhos, uma desafiante tarefa; muitos dos países de onde vem estas delícias não consomem bebidas alcoólicas, convidando a degustar chás, como na Tailândia. Já na gastronomia japonesa, impera o saquê, bebida que se bebe quente e origina do arroz, com aromas e sabores muito peculiares, álcool bem pronunciado. Para desafiar pimentas e peixes leves, cujo sabor é pronunciado, como salmão, a sugestão é iniciar por espumantes. Sugiro sempre que estejam muito gelados ao combinar com apimentados pratos; melhor se for método charmat, como Prosecco, pois a leveza é interessante, com toques frutados, cítricos e excelente acidez. Outra dica são os espumantes rosés medianamente encorpados, muito jovens. Os aromas de frutas como morango e um bom paladar transformam o encontro. Com rolinho primavera ao estilo vietnamita, quando acompanhado de molho agridoce ou apimentado, pode ser um de método tradicional, pois o estilo envelhecido vai complementar o sabor do prato. Se a idéia for acompanhar com vinhos, as escolhas devem se concentrar em brancos frutados, como Sauvignon Blanc ou Viogner. A acidez natural destas uvas, com aromas de abacaxi, maracujá, dão um complemento a esta gastronomia. Em recente jantar no restaurante Koh Pee Pee, uma referência em gastronomia tailandesa, uma interessante combinação desta culinária foi com um vinho da uva branca Gewurztraminer; isto pois a base de vários pratos é leite de côco, molhos agridoces, amendoim e a presença marcante da pimenta. Nestes casos, um vinho para harmonizar pode ter acidez equilibrada, um toque de açúcar, aromas florais e frutados, ser possível de beber em temperaturas mais baixas e ter "personalidade" para não ser encoberto pelos demais aromas. O Gewurztraminer tem perfume de lichia, rosas, frutas, transformando a harmonização. Se a opção for por vinhos tintos, buscar aqueles sem muito tanino, bom frescor, como um Pinot Noir, um vinho do sul da França, ou um Merlot brasileiro bastante jovem. Alguns assemblages também podem ser curiosos, desde que a madeira não seja tão aparente. Cuidado com o excesso do molho shoyo, ele pode apagar o sabor do vinho. Nas sobremesas, sempre a base de coco, frutas e também arroz e feijão, nada melhor que um Late Harvest branco, ou um Sauternes. Estes vinhos, por terem uma colheita mais tardía, possuem tanto açúcar natural, aromas que lembram a mel, amêndoas, frutos cítricos maduros, como boa potência em acidez, perfeito para equilibrar com os aromas delicados e sabores potentes destas iguarias. Vale degustar, conhecer, experimentar: harmonizar é usar a criatividade, transformando sabores em momentos exclusivos.
 
 


NOVEMBRO 2009

Valle de Colchagua

Uma das regiões mais belas e férteis do Chile é, sem dúvidas, o Valle de Colchagua. Situado a 130 kilometros ao sul de Santiago, é um paraíso para os amantes do vinho. Logo que o gaúcho chega em Colchagua, se sente em casa: tradição, cultura, alta gastronomia e muitos esportes hípicos são parte do cotidiano destes povoados chilenos. É lá que estão alguns dos vinhedos mais antigos da América e alguns dos melhores vinhos do mundo; vinícolas modernas, de arquitetura ousada são destaques, em contraste com pequenas bodegas e fazendas familiares. O termo Colchagua é de origem Mapuche, significando o "local onde a Huala (ave local sagrada) faz seus ninhos", ou também "pequenas lagoas". É o limite sul do Império Inca. Desenhado pela natureza, o vale corresponde a formação natural do Rio Tinguiririca, que nasce nos Andes e deságua no Lago Rapel, próximo ao Oceano Pacífico. Diferencia-se dos demais vales por um fenômeno, pois está entre duas faixas de montanhas, a Cordilheira dos Andes e os cerros da Cordilheira da Costa. Esta última, com altitudes próximas a 500m, permite que as brisas frias do Oceano Pacífico cheguem na medida perfeita até os vinhedos, enquanto os Andes mantém ali este frescor. Os solos são outros detalhes importantes: podem ter cinzas ou não de vulcões, mais ou menos minerais, compondo assim uma enorme colcha de "microterroirs". Assim, este conjunto de fatores, onde boa amplitude térmica (dias quentes, noites frias), quantidades mínimas de chuva, ótima sanidade, garantem vinhos de grande complexidade e muitos estilos. Mario Geisse, importante nome do vinho e enólogo da Viña Casa Silva, tem estudado e desenvolvido grandes vinhos a partir desta identificação dos microterroirs. Está valorizando não só os melhores vinhedos para o Carménère, como também descobrindo novas zonas. Um exemplo é o novo projeto em vinhos brancos, cujas vinhas estão próximas ao Oceano Pacífico, para explorar os aromas mais cítricos, complexidade e acidez para a Sauvignon Blanc. Os vinhos de Colchagua, geralmente tintos, são muito potentes, muito corpo e vivacidade. De lá saem grandes Carménères, Cabernet Sauvignon, além de Merlot e Syrah. Cada casa gosta de adaptar seu estilo. Na Viu Manent pode-se degustar, em um cenário de uma autêntica fazenda antiga da região, vinhos da uva Malbec, variedade pouco usual no Chile, cujos vinhedos são muito antigos e possibilitam vinhos únicos e longevos. No pequeno Vale de Apalta, destaco visitar a arquitetura da Viña Montes e a sofisticação arquitetônica do Clos Apalta, que, em 2008, sagrou-se  como "Wine of the Year - Wine Spectator", a mais importante premiação mundial da atualidade que um vinho pode receber, considerado assim, o "Vinho do Ano". Se tornou a febre dos colecionadores, um dos vinhos mais difíceis de encontrar na atualidade. Nesta visita, se pode conferir e conhecer todos os detalhes de elaboração, cuidado e exigencia para se ter um vinho desta categoria. Percorrer o caminho até Lolol, outra pequena cidade próxima ao Vale, traz vistas incríveis e se pode observar toda a grandiosidade de Colchagua. Em participação no Concurso Mundial de Bruxellas - Edição Chile, ocorrido em outubro, pude ver todo o avanço tecnológico e profissional desta região. A gastronomia é uma delícia a parte: o visitante pode aproveitar os assados campestres (parecidos ao nosso churrasco) ou a ampla gama de peixes e frutos do mar, frescos e muito variados. Além do vinho, pólo, hipismo, passear de charrete entre vinhedos são algumas das opções para se divertir com a família: com mais tempo, entre uma taça e outra, explorar as geladas praias do Pacífico, cuja estrada tem um visual único das montanhas andinas, uma viagem inesquecível.


OUTUBRO 2009

Vinhos Biodinâmicos


Inexplicáveis, únicos, artesanais, estranhos, são muitas as formas que os apreciadores descrevem vinhos deste movimento, que cada dia ganha mais força. O termo vem grego bio(vida), e dunamis (força); a biodinâmica é a "força da vida", "teoria das forças vitais". Os adeptos entendem a biodinâmica como uma maneira de estar e sentir agricultura e vida como parte integrante de um ecossistema com extensão cósmica, mais do que uma ciência aplicada. Foi criada pelo pensador espiritualista austríaco, Rudolf Steiner (1861-1925). Tem o pensamento mais radical que o orgânico, mas a mesma origem: o excesso de química do século XX aumentou a produção, destruindo pestes, mas também destruiu ecossistemas e, assim, o terroir, segundo os seguidores da teoria. Várias práticas biodinâmicas nascem em agriculturas primitivas proibidas pela Inquisição, vistas como bruxarias, como o calendário lunar e marés. Steiner organizou conceitos, agregando o lado filosófico e esotérico da questão. Uma das diferenças essenciais entre orgânicos e biodinâmicos é o tempo do plantio, regulado conforme as fases da lua. Além de uma teoria ou prática, o biodinamismo é também um estilo de vida da maioria dos viticultores que o seguem; o mercado gosta de chamá-los de "neo-hippies" de vido a esta forma de viver vinculado a natureza e energias do universo. Estes agricultores tem por objetivo fazer que os solos onde haja qualquer tipo de plantio ganhem a vida natural, original. Para começar a transição, primeiramente, necessita-se um cultivo orgânico ou biológico. Além disto, o biodinamismo considera a polaridade dos seres vivos, equilíbrio entre forças materiais da terra e forças energéticas: a influência do sol, lua e outros astros, mínimo de interferência humana, nada de química. Acredita-se que esses vinhos potencializem o terroir, em aromas, sabores e longevidade, sem filtros de defeitos. Não precisa ser bom, tem que ser verdadeiro. Ao questionar Marcel Deiss, um dos ícones biodinâmicos da Alsácia, sobre qualidade de safras, o mesmo afirmou: “não há safras boas ou ruins, são as formas de expressão da natureza em cada ano, em cada momento. O agricultor deve compreender a essência da vida e ajudar esta reconstrução. Se a natureza é agredida, ela responde.” O movimento é liderado atualmente pelo francês Nicolas Joly, que organiza e e incentiva os produtores nas diferentes regiões do mundo a fazer "La Renaissance de Appellations" - o Renascimento do Terroir. O biodinamismo deve ser visto de forma séria pelos consumidores e produtores; não pode ser marketing ou moda. Durante o Encontro Vinho e Arte, pude participar da palestra de Ariel Pérez, sommelier chileno, estudioso e apaixonado pelo conceito biodinâmico. Na ocasião, provamos vinhos que recentemente se converteram biodinâmico, da viña Matetic (Chile), bem como o ícone máximo, o Coulee de Serrant, elaborado por Nicolas Joly, no Vale do Loire. Este vinho branco necessita decanter, evolui e misteriosamente envelhece por anos sem perder toda sua elegância. Também vale ressaltar o trabalho da Avondale, na África do Sul, que substitui o controle químico e fertilizantes por criação de patos nos vinhedos: se alimentam das pragas, além de equilibrar o solo com o esterco, tudo em harmonia. O resultado são vinhos surpreendentes e muito equilibrados. A magia está em que o biodinâmico sabe que não se desenvolve sozinho, quer que toda a região desenvolva: se o vizinho segue aplicando defensivos, a chuva arrasta, as aves se contaminam. É preciso mudar todo o pensamento de uma região, cada um fazendo a sua parte, não só preservando a si mesmo, a natureza, como a identidade do lugar.


SETEMBRO 2009

VINUM REGUM, REX VINORUM
Tokaji, o vinho dos reis
 
Mítico, exótico, único: não há como definir a importância e a magia de uma bela taça de Tokaji. Símbolo da Hungria, é um vinho que atravessa séculos e tornou-se um dos preferidos de importantes czares, reis e rainhas: tudo começa em 1562, quando o Cardeal Draskovics presenteia Pio IX com uma garrafa deste néctar. A fama internacional começa a surgir. Citado em filmes, livros, é sempre curioso, único. Suas notas doces, os toques do terroir são inesquecíveis e fazem com que cada garrafa tenha uma longa vida, ainda em estudos. O período comunista fez com que Tokaji perdesse um pouco de sua identidade, cujo movimento pela sua recuperação é hoje um grande trabalho guiado por vários especialistas. Um dos grupos investidores é a família Vega Sicilia, proprietária de um dos melhores vinhos do mundo e da Espanha, hoje detentora da propriedade Oremus. A Hungria, este pequeno país, cuja produção de vinhos até poucos anos atrás era controlada em absoluto pelo governo, possui um dos mais interessantes processos de elaborar esta bebida, técnicas que aliam botrytis, seleção de grãos e um ótimo equilíbrio climático, tudo para nascer as jóias de Tokaji. O vinho surge na região vizinha a Eslováquia e Ucrânia, onde as noites são muito frescas, há uma neblina matinal, protegendo do sol mais intenso e um dia de temperaturas agradáveis. A paisagem imita o Rio Douro, são cerca de 4000 hectares plantados às margens do Rio Bodrog, próximo aos montes Cárpatos. Estas condições são perfeitas para que a Botrytis Cinerea, fungo que causa a Podridão Nobre desenvolva-se com plenitude, o que traz aromas delicados que lembram a mel, avelãs e frutos secos. As barricas de carvalho utilizadas são procedentes das florestas locais. Em Tokaji, as uvas cultivadas são autóctones: Furmint, Harslevelu, Muskotály e Zéta, todas brancas. O fantástico processo deste vinho inicia na própria colheita: uma pequena tina de madeira chamada puttonyo, de capacidade aproximada de 20 a 25 kilos, é utilizada não só para colher, mas também como medida de qualidade: as uvas são colhidas grão a grão, somente os que sejam atacados por botrytis. São levadas até a vinícola, onde forma no próprio recipiente uma massa botrytizada, que eles denominam "Aszu"; esta é mesclada a uma quantidade de vinho de Tokaji branco seco, já pronto, onde passa a ocorrer uma nova fermentação. A classificação se dá pelo número de puttonyos desta seleção de uvas adicionados a cada 136 litros de vinho seco, ou seja, quanto maior este número, mais especial e caro será o futuro vinho. Destaque absoluto para o Tokaji Eszencia, que surge exclusivamente do líquido natural que escorre da massa "Aszu" das melhores safras: muito raro, nada mais é do que o sumo escorrido, envelhecido por quatro a cinco anos em barricas e engarrafado, podendo ter mais de 500 gramas por litro de açúcares naturais. Em participação no evento "Vamos a Montanha", de Campos do Jordão, tive a honra de poder degustar Tokaji's de 3, 4, 5 e 6 Puttonyos, além de um Chateau Pajzos Eszencia 1993, um vinho que pode durar mais de cem anos. São muito interessantes, perfeitos para acompanhar sobremesas ou fazerem por si este papel. O excelente equilíbrio de acidez, a doçura e a complexidade do aroma tornam cada taça uma experiência, uma prova de que o homem com muita sensibilidade e cuidade consegue transformar as dádivas da natureza em verdadeiras obras de arte para os cinco sentidos.
 


AGOSTO 2009

Pais e Vinhos
 
Vinho: uma bebida que por tradição lembra família. E lembra bem o modelo italiano: pai sentado à ponta da mesa, boa gastronomia, filhos e netos ao redor. Nada pode faltar, é uma bebida de comemoração. E a história do vinho é feita por pais, que deixaram legados de amor à terra a sua gente. A arte de vinificar traduz um cuidado do pai com seus filhos: observar a terra, cada cacho, acompanhar o nascimento, ver como se desenvolve, o momento certo de deixar que o vinho parta da vinícola para a adega dos apreciadores. E há pais que souberam e sabem manter o equilíbrio destes cuidados, não deixam de cuidar de suas famílias, da mesma forma que fazem surgir grandes vinhos. Não se pode pensar em grandes homens do vinho sem lembrar de Robert Mondavi. Pioneiro no Napa Valley, levou sua marca pelo mundo e fez seu nome virar uma lenda. Enfrentou lei seca, concorrência, tornou o Cabernet Sauvignon uma grife nos Estados Unidos e no mundo. Outro é o pai Luis Pato, de Portugal, que valoriza a identidade da Bairrada e apóia o trabalho da filha, Filipa, com vinhos para cativar o universo dos novos consumidores, criando um novo jeito de ver os vinhos regionais, mais descontraído, fácil de gostar. Na Patagônia, Lucas Quiroga, um papai bem jovem, que deixou Mendoza para trás e foi explorar esta nova região, dedicar com toda sua vontade à Bodega del Fin del Mundo. Como importadores, admirável o trabalho do pai Adolar Hermann, junto a seu filho Edson, fundadores da Decanter, uma das importadoras que mais cresce no Brasil, divulgando com seriedade a cutura dos grandes vinhos. E no próprio Vale dos Vinhedos, o grande pai Luiz Valduga, pioneiro em idéias e bom atendimento, pois com todo seu jeito humilde e carinhoso criou o complexo da Casa Valduga; o criativo pai Adriano Miolo que está revoluciando a região e tem surpreendido a cada dia o mercado com suas idéias, parcerias. Ou Dillôr Freitas, que deixou um legado em São Joaquim, cheio de pioneirismo ao criar a Villa Francioni. Pais de ontem, de hoje, do futuro. Sem contar pais como Paulo Mazeron, presidente da SBAV Porto Alegre, dedicado sempre a divulgar o vinho. Seja um clássico de Bordeaux ou um moderníssimo syrah australiano, cada um para uma personalidade diferente. Para um pai que já tem tudo, principalmente saúde e uma bela família, nenhum presente é melhor que um bom vinho: será mais um motivo de brindar a vida e as belas coisas do mundo todos os dias.
 


JUNHO 2009

TERROIRS DO BRASIL
 
Uma data para comemorar, dia Estadual do Vinho. Uma lei estadual que homenageia o brindar, comemorar e também todos os envolvidos com esta bebida mágica. Trabalhar com vinho é vivenciar emoções, alegrias, safras boas e ruins. O vinho no Brasil não surgiu como negócio, muito menos com investidores, nem tecnologias, nem estudos. Este fenômeno aconteceu em toda a América Latina: italianos, tendo o vinho como parte da alimentação, colonizaram Mendoza e outros vilarejos argentinos, algumas cidades do Chile, fator fundamental para implantação da cultura da uva. Este hábito surgiu da forma de viver do terroir de onde vieram os primeiros imigrantes. Foi uma busca incessante por não perder a identidade de quem eram, de onde vieram, das lembranças do pouco que restava naquele tempo de miséria e fome que assolava parte da Europa. Trouxeram literalmente em suas malas galhos de videiras, plantaram aqui de forma rudimentar, afinal bastava uma pequena produção para manter o consumo de alguns copos diários para toda a família; crianças também bebiam o vinho, mesmo que com água. Pragas, intempéries, o não conhecer o novo solo, dizimaram as tentativas; como os Alsacianos fizeram após a Guerra, como Bordeaux fez após a Filoxera, os colonos da serra gaúcha, agora ítalo brasileiros, voltaram a replantar. Começaram a estudar mais o terroir, descobrir as melhores  variedades, porta enxertos, tecnologia. O tempo passou. Hoje, ficou o legado destes imigrantes: seus netos, bisnetos, seguem plantando, viraram enólogos, agrônomos, viajam pelo mundo buscando mais informação, descobrindo novas regiões. Hoje o Brasil também está na rota dos grandes vinhos, de Norte a Sul: Vale do São Francisco, interior de São Paulo, Serras Catarinenses, Encruzilhada do Sul, fronteira com Uruguai, e, claro, a linda Serra Gaúcha. Cada um com seu estilo, seu sabor, um convite a incríveis descobertas.


MAIO 2009

Idade de um vinho

Diz a sabedoria popular que um vinho, quanto mais velho, melhor. Esta afirmação, apesar de polêmica, segue sendo a maior dúvida dos apreciadores. Comprar um vinho da década de 90, 80 ou já ir direto às colheitas mais jovens é o dilema na hora da compra. Afinal, o que se deve entender por um vinho realmente antigo? Safra, estilo, terroir, produtor, guarda, tudo isto deve ser considerado neste momento. O conceito de vinhos velhos valerem milhares de dólares surge com as grandes safras dos vinhos de Bordeaux: além de serem cobiçados como jóias, seus melhores exemplares quando jovens são bastante rústicos. Uma boa vindima, com clima quente e chuvas moderadas, além de um bom terroir, trazem vinhos densos, potentes, polifenóis bem presentes. Isto faz com que estes vinhos, bem como um Brunello di Montalcino, um Gran Reserva da Rioja ou um clássico do alto Douro precise de anos para mostrar o seu melhor potencial. O tempo auxilia estes taninos amaciarem, os aromas evoluírem, trazendo o equilíbrio e persistência. A acidez é fator fundamental, ela garante a vida longa, atua como um protetor natural dos vinhos; um bom Barolo é marcante pela acidez, duram mais de 30 anos, são verdadeiras exceções. No dia a dia, vale considerar critérios básicos: brancos são excelentes jovens, quanto mais recente a safra, melhor. Tintos básicos do novo mundo, como a maioria dos chilenos, brasileiros ou argentinos que encontramos em supermercados, ficam muito bons com dois ou três anos após a colheita. Espumantes não devem ser estocados e sim bebidos assim que adquiridos. Vale comprar em locais onde as garrafas estejam bem armazenadas, buscar referências sobre as safras em ofertas e provar, afinal, ninguém melhor que o próprio apreciador para conhecer seu gosto pessoal e definir o quanto guardar.

 

 

ABRIL 2009

Vinhos no outono

O outono é a estação que traz os primeiros toques do "frio":  lareiras, roupas guardadas, chocolate, ida para Serra. O fim de tarde começa a ser mais frio, as noites pedem um vinho. A tonalidade das folhas é pura magia: ver o Vale dos Vinhedos com seu colorido multicor das videiras é uma experiência única. Laranja, vermelhos, amarelos, cobrem colinas feito colcha bordada. Cada outono pode ser diferente, conforme a intensidade do verão, é o fenômeno do terroir. Ainda há colheita em alguns locais, que geralmente resultam nos saborosos vinhos de sobremesa. Ainda há tintos também sendo colhidos, em algumas regiões muito específicas. É também a estação da Páscoa: peixes, família e chocolate, crianças, avós. Para os peixes mais sutis, nada melhor que um bom Sauvignon Blanc ou um Viogner, varietal francês que está em alta, principalmente na Argentina. Se a escolha for Bacalhau, um Chardonnay bem amadeirado, um Pinot Noir ou um jovem Gamay podem ser as sugestões. Os vinhos espumantes também invadem a mesa, principalmente se tiveros uma páscoa com dias mais quentes. Para os chocolates, quem sabe tentar um Cabernet bem encorpado,um syrah ou o tradicional Vinho do Porto. Sim, o outono é a estação do vinho, é perfeito para brancos encorpados, para tintos leves ou fortes. Uma estação que é cenário perfeito para um piquenique no parque, ver as folhas cairem, as cores da natureza, uma ótima companhia.

 


 

MARÇO 2009 | PERGUNTA DO LEITOR

Gostaria que, se possível, mandassem algumas informações acerca da uva da variedade "bonarda", principalmente se é cultivada no RS e onde encontrá-la.

Esta uva, típica do Piemonte, na Itália, junto com a Barbera, chegou ao Brasil nos anos 50, quando grandes vinícolas buscavam novas alternativas para a serra gaúcha. Hoje não é mais cultivada aqui, porém a Barbera sim, principalmente na região de Encruzilhada do Sul, onde a vinícola Angheben investiu em novas mudas e estuda o comportamento desta variedade. Rústica, seus vinhos são bastante duros e necessitam de uma clima e condições muito favoráveis para que mostrem sua melhor expressão. Na Argentina é muito cultivada, sendo a uva base para vinhos mais simples, pois é de alto rendimento; neste caso, seu nome não vem escrito nos rótulos. Os argentinos tem um movimento de valorização da Bonarda: inúmeros produtores, como Nieto Senetiner, a elaboram como um vinho ícone, já recebendo reconhecimento e números prêmios internacionais.

 


 

MARÇO 2009

Ícones do Chile
 
O Chile foi desenhado para elaborar grandes vinhos. Protegido ao norte pelo Atacama, ao sul pela Patagônia, ao oeste pelo Pacífico e a leste pela Cordilheira do Andes, é cenário perfeito para produção de inúmeras frutas, principalmente a uva, protegido de pragas. Terremotos, atividades vulcânicas e a influência do oceano criaram uma infinidade de microclimas. Seja mais proximo dos Andes ou ao mar, os enólogos buscam conhecer mais suas terras. Em recente visita ao Maipo, Colchagua e Curicó, percebi o avanço tecnológico e o estudo da Carménère, uva símbolo do país. Conhecer o terroir, conjunto de características de clima, solo e planta, faz surgir vinhos de diferentes categorias e estilos. Mário Geisse, da Casa Silva, destaca toda a dedicação e estudo dos microterroirs, vinhos únicos de grande personalidade, e o controle do ponto de maturação de todos seus vinhedos, que se dá pela comparação de degustação de uvas, análises de laboratório e fotografias aéreas. Buscam vinhos menos herbáceos, equilibrados, agradáveis. Marcelo Retamal, da vinícola De Martino, se dedica aos novos vales, como Elquí e Limarí, estudando manchas de solo, proximidade com os rios e o estilo que cada variedade demonstra nestes locais. A preservação da natureza também ganha espaço: usar o mínimo de defensivos, máquinas, mantendo um ambiente natural e seguro são princípios de vida. Na Almaviva, a mescla do estilo francês, um terroir especial para Cabernet Sauvignon e a mais alta tecnologia faz surgir este vinho único. Em 2008, segundo a revista Wine Spectator, o vinho do ano, a nível mundial, foi Clos Apalta, outro ícone chileno. Sem dúvida, um país repleto de vales ainda desconhecidos, que começam a ganhar reconhecimento na mídia internacional e cada vez mais atenção na adega dos consumidores.

FEVEREIRO 2009
Vinhos e Aquecimento Global

A colheita de uvas brancas em Mendoza deveria ocorrer em fevereiro; em 2009, adiantou-se para o início de janeiro. Nos anos 80, vinhos com 15 graus alcoólicos não eram tão facilmente elaborados; hoje, são os mais expostos. Secas extremas, chuvas devastadoras, surgimento de pragas e desaparecimento de outras, são conseqüências assustadoras do aquecimento global. Com muito calor na primavera, a videira brota e floresce precocemente; com chuvas, as flores, que serão os futuros cachos de uvas, apodrecem e não resultam em uma boa safra. Uma leve seca na vindima é preciso, pois garante sanidade e amadurecimento. Porém, quando em excesso, há a formação desproporcional de açúcares e declínio da acidez, gerando vinhos muito alcoólicos, sem equilíbrio e estrutura. Vinhos como Champagne, que dependem desta acidez, e Sauternes, que dependem da umidade do ar, tendem a desaparecer. A guerra contra o aquecimento já tem defensores: inúmeras vinícolas tem adaptado as práticas para atenuar a poluição que causam, além da busca de novas terras quando as suas forem inundadas. É o caso do grupo espanhol Torres. Está no Penedés, considerada área de "risco" pelos estudiosos pela proximidade com o mar e baixíssima altitude. Além de adaptar toda a empresa de forma sustentável, adquiriu
terras na montanhas Pirineus para plantar nesta região mais alta. Há também a cultura dos orgânicos e biodinâmicos, que cresce a cada dia. Quanto a nós, consumidores, cabe apreciar vinho, porém descartar corretamente as garrafas e rolhas, fazendo a nossa parte para presevar o planeta.

JANEIRO 2009

Sabor de verão

Chega janeiro. A ida para praia, as frutas tropicais, happy hours, camarões, peixes e muitas delícias. Para quem sobe a serra, é época de vindima. Ou seja, tudo leva ao vinho. Espumantes, sejam brut, rosés ou moscatel, não mais se limitam ao reveillon, são a pedida do happy hour. Com a alta do dólar, os espumantes brasileiros serão as grandes estrelas. Para os frutos do mar, é a hora de provar as novidades em vinhos brancos. Os europeus voltam a cena, sabores do sul da França, os espanhóis de Rueda e os clássicos alsacianos da uva Gewurztraminer são algumas das sugestões. Do novo mundo, prove uvas diferentes, como Viogner ou Pinot Grigio, bem como novas regiões, Patagônia, ilha sul da Nova Zelândia ou campanha gaúcha. Os rosés seguem em alta, destaque para os que surgem em São Joaquim, cheios de aromas frutados e boa acidez. Tintos leves também aparecem, como o Pinot Noir ou Syrah jovem, sem madeira, que, além de boas taças, vão ao balde de gelo. O verão é a estação da safra em todo o hemisfério sul. Para quem quer entender  mais sobre elaborar vinhos, agora é o momento da colheita. Vale curtir o final de semana na serra, visitar as vinícolas e ver de pertinho a elaboração. Além de provar  as uvas, uma chance para degustar as novidades junto aos produtores. Uma experiência inesquecível para toda a família.